“Nada grandioso demais, foi conseguido sem entusiasmo”. (R. W. Emerson)
A Terceira palavra fala da dedicação de quem deseja ensinar, passando a maior parte do tempo calado. Aprendendo em silêncio nos livros, esboçando idéias e secretamente lendo e meditando para tentar ouvir a voz do “Texto”.
O comunicador é um guia que estudou a estrada para sinalizá-la aos outros. Conduz seus ouvintes como quem coloca placas: indicando trajetória, paradas obrigatórias, advertências, limites, alertas. Portanto precisa conhecê-la em detalhes.
Algumas perguntas deverão ser feitas ao Texto: “quem escreveu?”, “para quem?”, “quando?, “por quê?”, “pra quê?”, “o que diz antes e depois?, “onde?”, quantos parágrafos?”, “como estão ligados?”; “quais as ações de cada frase?” “em que tempo estão?”, “o significado pra época?” E então, “o que tem a ver conosco?
Ele conhece a máxima latina “Traduttore, traditore”, “todo tradutor é um traidor”. Então se esforça para honrar o autor, que embora usasse diferentes gêneros: poesia, parábola, profecia, narrativa histórica, escreveu para ser entendido. Então não há enigmas, mensagens subliminares ou ocultas, o que há é dedicação e trabalho.
Cada palavra deverá ser considerada dentro do seu contexto histórico e gramatical em busca da intenção do autor, para se entender “a verdade do texto”. E somente então se aplicará aos ouvintes. Cada texto quer dizer alguma coisa e o que ele diz pode ser aplicado de diferentes formas, sempre com respeitada coerência.
Enfim, o comunicador é um garimpeiro de pedras preciosas, que ao encontrá-las com esforço, corre para mostrar aos outros a beleza do seu achado. (Tchai Hoth)
28 de jun. de 2014
25 de jun. de 2014
Sermão: Luz e Voz - 2. O Texto. "Orientação aos Pregadores"
“Minha consciência é escrava da Palavra de Deus” (Martinho Lutero).
A Segunda palavra está relacionada ao conteúdo. Uma vez que o “Temor” são as cercas de proteção do caminhante o “Texto” é a firme pavimentação ou o leito desta estrada sobre a qual se pretende seguir.
Quando os textos eram escritos letra por letra com um formão entalhando palavras em tábuas, ler era o cuidado de guiar os dedos pelos sulcos ou o leito na madeira, daí a palavra “leitura”. Portanto o bom leitor não se devia.
Cada texto é escrito com uma intenção específica e não deve ser usado por pretexto, dizendo aquilo que ele não diz. Não invente, mantenha-se fiel. O comunicador não é porta-voz da Bíblia, mas sim uma testemunha fiel: que falará somente o que viu; e jamais o que acha ou pensa. Ele é apenas um servo.
Saiba que o bom sermão dependerá de uma excelente leitura. Cuide-se de conhecer o significado de cada palavra do texto, tenha um bom dicionário. Evite explicar o que é claro. Detenha-se, salve o auditório de ouvir histórias sem fim. Esconda-se atrás da Bíblia. Honre a Deus, respeite os ouvintes: Pregue a Palavra.
Alquimistas diziam conhecer o suficiente para transformar metal comum em ouro; hoje alguns pregadores são verdadeiros alquimistas da desordem, e por falta de esforço tentam transformar o santo Ouro Bíblico em coisa comum.
Portanto dedique-se ao ler o texto: emposte a voz, respire, respeite as pausas e as ênfases. Seja claro, intrépido, audível. Se necessário, treine em casa, pois uma boa leitura valerá tanto ou mais do que um belo sermão. (Tchai Hoth)
A Segunda palavra está relacionada ao conteúdo. Uma vez que o “Temor” são as cercas de proteção do caminhante o “Texto” é a firme pavimentação ou o leito desta estrada sobre a qual se pretende seguir.
Quando os textos eram escritos letra por letra com um formão entalhando palavras em tábuas, ler era o cuidado de guiar os dedos pelos sulcos ou o leito na madeira, daí a palavra “leitura”. Portanto o bom leitor não se devia.
Cada texto é escrito com uma intenção específica e não deve ser usado por pretexto, dizendo aquilo que ele não diz. Não invente, mantenha-se fiel. O comunicador não é porta-voz da Bíblia, mas sim uma testemunha fiel: que falará somente o que viu; e jamais o que acha ou pensa. Ele é apenas um servo.
Saiba que o bom sermão dependerá de uma excelente leitura. Cuide-se de conhecer o significado de cada palavra do texto, tenha um bom dicionário. Evite explicar o que é claro. Detenha-se, salve o auditório de ouvir histórias sem fim. Esconda-se atrás da Bíblia. Honre a Deus, respeite os ouvintes: Pregue a Palavra.
Alquimistas diziam conhecer o suficiente para transformar metal comum em ouro; hoje alguns pregadores são verdadeiros alquimistas da desordem, e por falta de esforço tentam transformar o santo Ouro Bíblico em coisa comum.
Portanto dedique-se ao ler o texto: emposte a voz, respire, respeite as pausas e as ênfases. Seja claro, intrépido, audível. Se necessário, treine em casa, pois uma boa leitura valerá tanto ou mais do que um belo sermão. (Tchai Hoth)
23 de jun. de 2014
Sermão: Luz e Voz - 1. O Temor. "Orientação aos Pregadores"
“Deus não tem compromisso com seus ideais. Deus tem compromisso com a Palavra dEle” (Hernandes Dias Lopes).
A Primeira das dez palavras aos comunicadores à serviço da piedade é a palavra “Temor”. Entendida por cuidado, medo e respeito. Sentimento vital para todo minerador de pedras preciosas em cavernas profundas.
Deverá ser considerado antes de qualquer passo e sem ele nada deverá ser feito em relação as coisas sagradas, pois o “Temor” ao Senhor é o princípio, meio, resultado e propósito de todo o intento (Sl 25.14; Pv 9.10, Is 33.6, Ec 12.13).
Indica o cuidado, a coerência de quem ama mais a Deus do que as coisas de Deus, como disse Davi: “outro bem não possuo, senão a Ti somente...” (Sl 16.2). É o “Orare et labutare” de Lutero afirmando que a oração precede, motiva o trabalho.
Este respeito ou reverência serão as cercas do caminho a proteger o mensageiro do perigo de querer aparecer mais do que a mensagem ou o Senhor da mensagem, o que seria um desserviço. Portanto agradar a Deus deverá ser a meta em todas as etapas até a entrega do que se pretende comunicar.
Nesta tarefa portanto, o medo de falhar, a vergonha ou opinião alheia que paralisam a muitos são também os combustíveis de tantos outros, que por isso se prepararam ainda mais para um melhor resultado. O autocontrole será o diferencial.
Saibamos que o medo gera em nós um estado de alerta. Descarregando adrenalina nas correntes sanguíneas: acelera o coração, dilata a pupila, para uma atenção exagerada a tudo o que ocorre ao redor. Dever então ser visto como aliado. (Tchai Hoth)
A Primeira das dez palavras aos comunicadores à serviço da piedade é a palavra “Temor”. Entendida por cuidado, medo e respeito. Sentimento vital para todo minerador de pedras preciosas em cavernas profundas.
Deverá ser considerado antes de qualquer passo e sem ele nada deverá ser feito em relação as coisas sagradas, pois o “Temor” ao Senhor é o princípio, meio, resultado e propósito de todo o intento (Sl 25.14; Pv 9.10, Is 33.6, Ec 12.13).
Indica o cuidado, a coerência de quem ama mais a Deus do que as coisas de Deus, como disse Davi: “outro bem não possuo, senão a Ti somente...” (Sl 16.2). É o “Orare et labutare” de Lutero afirmando que a oração precede, motiva o trabalho.
Este respeito ou reverência serão as cercas do caminho a proteger o mensageiro do perigo de querer aparecer mais do que a mensagem ou o Senhor da mensagem, o que seria um desserviço. Portanto agradar a Deus deverá ser a meta em todas as etapas até a entrega do que se pretende comunicar.
Nesta tarefa portanto, o medo de falhar, a vergonha ou opinião alheia que paralisam a muitos são também os combustíveis de tantos outros, que por isso se prepararam ainda mais para um melhor resultado. O autocontrole será o diferencial.
Saibamos que o medo gera em nós um estado de alerta. Descarregando adrenalina nas correntes sanguíneas: acelera o coração, dilata a pupila, para uma atenção exagerada a tudo o que ocorre ao redor. Dever então ser visto como aliado. (Tchai Hoth)
21 de jun. de 2014
Sermão: Luz e Voz - Introdução. "Orientação aos Pregadores"
INTRODUÇÃO:
“O grande sermão não é aquele que nos faz dizer: que grande sermão!, mas aquele que nos faz dizer: que grande Deus!” (Spurgeon).
Para esta série de orientações aos pregadores, professores de escola dominical, liturgistas, comunicadores e palestrantes se aplicará o Método “T” para a instrução dos que querem aprenderem ou se aprimorarem numa das mais excelentes das artes: a arte de se falar em público e instruir pessoas.
Embora fosse algo natural, o falar bem é uma arte que deve ser desenvolvida. As palavras à serviço do orador pintarão ou borrarão belos quadros. Tudo dependerá do cuidado e esforço do artista na escolha e uso do material.
O Método “T” se fundamenta em doze palavras iniciadas pela Letra “T”, para facilitar a memorização de regras importantes que jamais deverão ser ignoradas na arte da comunicação, especialmente a da Santa Palavra de Deus.
As palavras são: Temor; Texto, Trabalho, Tese, Tutor, Treino, Técnica, Tempo, Tato, Tom, Término, Testemunho. Que se respeitadas serão amigas do orador para uma boa comunicação, mas se ignoradas serão inimigas de todos: oradores e ouvintes.
O primeiro grupo de palavras: Temor, Texto, Trabalho, Tese, Tutor e Treino são a preparação do que se falará, enquanto que o segundo grupo: Técnica, Tempo, Tom, Tato, Término e Testemunho, dizem da execução, ou do como se falará.
E como se dá nas áreas das aplicações humanas, a etapa da preparação consome 90% de todo o trabalho, porém será os 10% restantes, ou execução, que coroará ou não todo o serviço, como um diamante num anel dourdado. (Tchai Hoth)
16 de mai. de 2014
13 de mai. de 2014
12 de mai. de 2014
Rev. Augustus Nicodemus fala sobre a Marcha para Jesus
A "Marcha Para Jesus": Uma Avaliação Crítica (2a edição revisada)*
Autor: Augustus Nicodemus Lopes**
Introdução
[...]
As razões e argumentos, bem como informações institucionais e históricas sobre a Marcha estão disponíveis no site www.marchaparajesus.com.br (em 12/01/2005).
Histórico da Marcha para Jesus
...a primeira Marcha para Jesus aconteceu em 1987 na cidade de Londres (Inglaterra), e...no ano de 1993, chega a vez do Brasil realizar a sua primeira edição do evento, sob a orientação da Renascer. A partir daí, a cada ano, o evento toma mais e mais aspecto de show gospel, apresentação de artistas evangélicos e desfiles, sempre com muita dança ao som de pagode e axé ditos evangélicos. Em alguns locais, não sabemos se de acordo com a coordenação da Marcha ou não, políticos evangélicos têm aproveitado a oportunidade.
A Ideologia por Detrás da Marcha
Existe uma justificativa teológica elaborada para a Marcha, que procura abonar o evento à luz da Bíblia. Os pontos abaixo foram retirados do site Marcha para Jesus (www.marchaparajesus.com.br) e se constituem na "teologia da Marcha". Aliás, a maior parte deles se encontra exatamente debaixo do tópico "teologia" no site da Marcha. Segue um resumo dos principais argumentos, entre outros, seguidos de um breve comentário.
A ordem de "marchar" aparentemente foi dada mediante revelação do Espírito Santo. Diz o site:
A visão inicial da Marcha para Jesus, como qualquer outra ação em que os cristãos empreendem para Deus, está baseado [sic!] no conhecimento e na obediência. Nós acreditamos que Deus diz para nós marcharmos, e esta obediência precede uma revelação. O Espírito Santo de Deus nos conduz em toda a verdade (João 16:13) e a teologia do ato de marcharmos para Jesus emerge quando nós nos engajamos em ouvir o que o Espírito Santo está dizendo para uma Igreja atuante e batalhadora nesta terra.
Comentário: O parágrafo acima não é claro, mas dá a entender que a visão inicial foi mediante uma revelação de Deus, seguida da obediência da Renascer, em cumprir a visão. Líderes da Renascer negam que a visão inicial foi dada por revelação. Contudo, o parágrafo acima sugere que a visão da Marcha foi dada pelo Espírito para a Renascer. Quando nos lembramos que a Renascer tem um "apóstolo" (uso o termo entre aspas, não por qualquer desrespeito ao líder da Renascer, mas porque não creio que existam apóstolos hoje à semelhança dos Doze e de Paulo), imagino que "revelações" (uso o termo entre aspas não por desrespeito às práticas da Renascer, mas porque não creio que existam novas revelações da parte de Deus hoje) devam ser freqüentes.
a Marcha é uma declaração teológica: a Igreja está em movimento e está viva! É o meio pelo qual os cristãos querem ser conhecidos publicamente como discípulos de Jesus.
Comentário: Se esta é a forma bíblica dos cristãos mostrarem que estão vivos e que são seguidores de Jesus, é no mínimo estranho que não encontremos o menor traço de marchas para Jesus no Novo Testamento, ou para Deus no Antigo.
3. A Marcha é entendida como uma celebração semelhante às do Antigo Testamento, possuindo uma qualidade extremamente espontânea e alegre. Participam da Marcha jovens de caras pintadas, cartazes, roupas coloridas e canções vivazes. Isto é visto como uma celebração do amor extravagante de Deus para o mundo.
Comentário: Na minha avaliação, o ponto acima dificilmente pode ser tomado como um argumento bíblico ou teológico para justificar o evento. As "marchas" de Israel no Antigo Testamento, não tinham como alvo evangelizar os povos - ao contrário, eram marchas de guerra, para conquistá-los ou exterminá-los, conforme o próprio Deus mandou naquela época. Fica difícil imaginar os israelitas organizando uma marcha através de Canaã, com os levitas tocando seus instrumentos e dando shows, para ganhar os cananeus para a fé no Deus de Israel!
4. Marchar para Jesus é visto também como um ato profético que dá consciência espiritual às pessoas. Josué mobilizou as pessoas de Israel para marchar ao redor das paredes de Jericó. Jeosafá marchou no deserto entoando louvores a Deus. Quando os cristãos marcham, estão agindo profeticamente, diz a Renascer.
Comentário: Entendo que se trata de um uso errado das Escrituras. Por exemplo: se vamos tomar o texto de Josué como uma ordem para que os cristãos marchem, por que então somente marchar? Por que não tocar trombetas? E por que só marchar uma vez, e não sete ao redor da cidade inteira? E por que não mandar uma arca com as tábuas da lei na frente? E por que não ficar silencioso as seis primeiras vezes e só gritar na sétima?
5. Marchar para Jesus traz uma sensação natural de estar reivindicando o lugar no qual os participantes caminham. Acredita-se que assim libera-se no mundo espiritual a oportunidade desejada por Deus: "Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, eu a darei ..." (Josué 1.3).
Comentário: Será esta uma interpretação correta das Escrituras? Podemos tomar esta promessa de Deus a Josué e ao povo de Israel como sendo uma ordem para que os cristãos de todas as épocas marquem o terreno de Deus através de marchas? Que evangelizem, conquistem, e ganhem povos e nações para Jesus através de marchar no território deles? Que estratégia é esta, que nunca foi revelada antes aos apóstolos, Pais da Igreja, missionários, reformadores, evangelistas, de todas as épocas e terras, e da qual não encontramos o menor traço na Bíblia?
6. A Marcha destrói as fortalezas erguidas pelo inimigo em certas áreas das cidades e regiões onde ela acontece, declarando com fé que Jesus Cristo é o Senhor do Brasil.
Comentário: Onde está a fundamentação bíblica para tal? Na verdade, este ponto é baseado em conceitos do movimento de batalha espiritual, especialmente o conceito de espíritos territoriais, e em conceitos da confissão positiva, que afirmam que criamos realidades espirituais pelo poder das nossas declarações e palavras.
7. Os defensores da Marcha dizem que ela projeta a presença dos evangélicos na mídia de todo o Brasil.
Comentário: É verdade, só que a projeção nem sempre tem sido positiva. Além de provocar polêmica entre os próprios evangélicos, a mídia secular tem tido por vezes avaliação irônica e negativa.
8. Os defensores da Marcha dizem que pessoas se convertem no evento.
Comentário: Não nos é dito qual é o critério usado para identificar as verdadeiras conversões. Se for levantar a mão ou vir à frente durante os shows e as pregações da Marcha, é um critério bastante questionável. As estatísticas que temos nos dizem que apenas 10% das pessoas que atendem a um apelo em cruzadas de evangelização em massa, como aquelas de Billy Graham, permanecem nas igrejas. Mas, mesmo considerando as conversões reais, ainda não justificaria, pois não raras vezes Deus utiliza meios para converter pessoas, meios estes que não se tornam legítimos somente porque Deus os usou. Por exemplo, o fato de que maridos descrentes se convertem através da esposa crente não quer dizer que Deus aprova o casamento misto e nem que namorar descrentes para convertê-los seja estratégia evangelística adequada.
9. Os defensores dizem ainda que a Marcha promove a unidade entre os cristãos. Em alguns lugares do mundo, a Marcha é concluída com um "pacto" entre as denominações, confissões e indivíduos, exigindo que cada um deles não faça mais discriminação por razões doutrinárias.
Comentário: Sou favorável à unidade entre os verdadeiros cristãos. Mas não a qualquer preço e não qualquer tipo de união. A unidade promovida pela Marcha, sob as condições mencionadas acima, tem o efeito de relegar a doutrina bíblica a uma condição secundária. O resultado é que se deixa de dar atenção à doutrina. Em nome da unidade, abandona-se a exatidão doutrinária. Deixa-se de denunciar os erros doutrinários grosseiros que estão presentes em muitas denominações, erros sobre o ser de Deus, sobre a pessoa de Jesus Cristo, a pessoa e atuação do Espírito, o caminho da salvação pela fé somente, etc. Unidade entre os cristãos é boa e bíblica somente se for em torno da verdade. Jamais devemos sacrificar a verdade em nome de uma pretensa unidade. A unidade que a Marcha mostra ao mundo não corresponde à realidade. Ela acaba escondendo as divisões internas, os rachas doutrinários, as brigas pelo poder e as divisões que existem entre os evangélicos. Se queremos de fato unidade, vamos encarar nossas diferenças de frente e procurar discuti-las e resolve-las em concílios, reuniões, na mesa de discussão - e não marchando.
10. Os defensores da Marcha dizem que ela é uma forma de proclamação do Evangelho ao mundo.
Comentário: A resposta que damos é que a proclamação feita na Marcha vem misturada com apresentações de artistas gospel profissionais, ambiente de folia e danceteria, a ponto de perder-se no meio destas outras coisas. Além do mais, a mensagem proclamada é aquela da Renascer em Cristo, com a qual naturalmente as igrejas evangélicas históricas não concordariam, pois é influenciada pela teologia da prosperidade e pela batalha espiritual.
É evidente que, analisada de perto, a "teologia da Marcha" não se constitui em teologia propriamente dita. Os argumentos acima não provam que há uma revelação para que se marche, e não justificam a necessidade de os cristãos obedecerem organizando marchas. Não há qualquer justificativa bíblica para que os cristãos façam marchas, nem qualquer sustentação bíblica para a idéia de "dar a Deus a oportunidade" mediante uma marcha, ou ainda de que, marchando e declarando, se conquistam regiões e cidades para Cristo. Se há fundamento bíblico, por que os primeiros cristãos não o fizeram? Por que historicamente a Igreja Cristã nunca fez?
Pelos motivos acima, entendo que os argumentos bíblicos e teológicos apresentados para justificar a Marcha para Jesus não procedem. Nada tenho contra que cristãos organizem uma Marcha para Jesus. Apenas acho que não deveriam procurar justificar bíblica e teologicamente como se fosse um ato de obediência à Palavra de Deus. Neste caso, estão condenando como desobedientes todos os cristãos do passado, que nunca marcharam, e os que, no presente, também não marcham.
* Este texto foi originalmente publicado no site da Igreja Presbiteriana do Brasil em 17/01/2005
** O autor é paraibano, casado com Minka, pai de Hendrika (19), Samuel (16), David (15), Anna (13). Pastor presbiteriano (IPB), mestre e doutor em Interpretação Bíblica (África do Sul, Estados Unidos e Holanda), chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de exegese, Bíblia, pregação expositiva no Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da IPB, autor de vários livros.
Autor: Augustus Nicodemus Lopes**
Introdução
[...]
As razões e argumentos, bem como informações institucionais e históricas sobre a Marcha estão disponíveis no site www.marchaparajesus.com.br (em 12/01/2005).
Histórico da Marcha para Jesus
...a primeira Marcha para Jesus aconteceu em 1987 na cidade de Londres (Inglaterra), e...no ano de 1993, chega a vez do Brasil realizar a sua primeira edição do evento, sob a orientação da Renascer. A partir daí, a cada ano, o evento toma mais e mais aspecto de show gospel, apresentação de artistas evangélicos e desfiles, sempre com muita dança ao som de pagode e axé ditos evangélicos. Em alguns locais, não sabemos se de acordo com a coordenação da Marcha ou não, políticos evangélicos têm aproveitado a oportunidade.
A Ideologia por Detrás da Marcha
Existe uma justificativa teológica elaborada para a Marcha, que procura abonar o evento à luz da Bíblia. Os pontos abaixo foram retirados do site Marcha para Jesus (www.marchaparajesus.com.br) e se constituem na "teologia da Marcha". Aliás, a maior parte deles se encontra exatamente debaixo do tópico "teologia" no site da Marcha. Segue um resumo dos principais argumentos, entre outros, seguidos de um breve comentário.
A ordem de "marchar" aparentemente foi dada mediante revelação do Espírito Santo. Diz o site:
A visão inicial da Marcha para Jesus, como qualquer outra ação em que os cristãos empreendem para Deus, está baseado [sic!] no conhecimento e na obediência. Nós acreditamos que Deus diz para nós marcharmos, e esta obediência precede uma revelação. O Espírito Santo de Deus nos conduz em toda a verdade (João 16:13) e a teologia do ato de marcharmos para Jesus emerge quando nós nos engajamos em ouvir o que o Espírito Santo está dizendo para uma Igreja atuante e batalhadora nesta terra.
Comentário: O parágrafo acima não é claro, mas dá a entender que a visão inicial foi mediante uma revelação de Deus, seguida da obediência da Renascer, em cumprir a visão. Líderes da Renascer negam que a visão inicial foi dada por revelação. Contudo, o parágrafo acima sugere que a visão da Marcha foi dada pelo Espírito para a Renascer. Quando nos lembramos que a Renascer tem um "apóstolo" (uso o termo entre aspas, não por qualquer desrespeito ao líder da Renascer, mas porque não creio que existam apóstolos hoje à semelhança dos Doze e de Paulo), imagino que "revelações" (uso o termo entre aspas não por desrespeito às práticas da Renascer, mas porque não creio que existam novas revelações da parte de Deus hoje) devam ser freqüentes.
a Marcha é uma declaração teológica: a Igreja está em movimento e está viva! É o meio pelo qual os cristãos querem ser conhecidos publicamente como discípulos de Jesus.
Comentário: Se esta é a forma bíblica dos cristãos mostrarem que estão vivos e que são seguidores de Jesus, é no mínimo estranho que não encontremos o menor traço de marchas para Jesus no Novo Testamento, ou para Deus no Antigo.
3. A Marcha é entendida como uma celebração semelhante às do Antigo Testamento, possuindo uma qualidade extremamente espontânea e alegre. Participam da Marcha jovens de caras pintadas, cartazes, roupas coloridas e canções vivazes. Isto é visto como uma celebração do amor extravagante de Deus para o mundo.
Comentário: Na minha avaliação, o ponto acima dificilmente pode ser tomado como um argumento bíblico ou teológico para justificar o evento. As "marchas" de Israel no Antigo Testamento, não tinham como alvo evangelizar os povos - ao contrário, eram marchas de guerra, para conquistá-los ou exterminá-los, conforme o próprio Deus mandou naquela época. Fica difícil imaginar os israelitas organizando uma marcha através de Canaã, com os levitas tocando seus instrumentos e dando shows, para ganhar os cananeus para a fé no Deus de Israel!
4. Marchar para Jesus é visto também como um ato profético que dá consciência espiritual às pessoas. Josué mobilizou as pessoas de Israel para marchar ao redor das paredes de Jericó. Jeosafá marchou no deserto entoando louvores a Deus. Quando os cristãos marcham, estão agindo profeticamente, diz a Renascer.
Comentário: Entendo que se trata de um uso errado das Escrituras. Por exemplo: se vamos tomar o texto de Josué como uma ordem para que os cristãos marchem, por que então somente marchar? Por que não tocar trombetas? E por que só marchar uma vez, e não sete ao redor da cidade inteira? E por que não mandar uma arca com as tábuas da lei na frente? E por que não ficar silencioso as seis primeiras vezes e só gritar na sétima?
5. Marchar para Jesus traz uma sensação natural de estar reivindicando o lugar no qual os participantes caminham. Acredita-se que assim libera-se no mundo espiritual a oportunidade desejada por Deus: "Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, eu a darei ..." (Josué 1.3).
Comentário: Será esta uma interpretação correta das Escrituras? Podemos tomar esta promessa de Deus a Josué e ao povo de Israel como sendo uma ordem para que os cristãos de todas as épocas marquem o terreno de Deus através de marchas? Que evangelizem, conquistem, e ganhem povos e nações para Jesus através de marchar no território deles? Que estratégia é esta, que nunca foi revelada antes aos apóstolos, Pais da Igreja, missionários, reformadores, evangelistas, de todas as épocas e terras, e da qual não encontramos o menor traço na Bíblia?
6. A Marcha destrói as fortalezas erguidas pelo inimigo em certas áreas das cidades e regiões onde ela acontece, declarando com fé que Jesus Cristo é o Senhor do Brasil.
Comentário: Onde está a fundamentação bíblica para tal? Na verdade, este ponto é baseado em conceitos do movimento de batalha espiritual, especialmente o conceito de espíritos territoriais, e em conceitos da confissão positiva, que afirmam que criamos realidades espirituais pelo poder das nossas declarações e palavras.
7. Os defensores da Marcha dizem que ela projeta a presença dos evangélicos na mídia de todo o Brasil.
Comentário: É verdade, só que a projeção nem sempre tem sido positiva. Além de provocar polêmica entre os próprios evangélicos, a mídia secular tem tido por vezes avaliação irônica e negativa.
8. Os defensores da Marcha dizem que pessoas se convertem no evento.
Comentário: Não nos é dito qual é o critério usado para identificar as verdadeiras conversões. Se for levantar a mão ou vir à frente durante os shows e as pregações da Marcha, é um critério bastante questionável. As estatísticas que temos nos dizem que apenas 10% das pessoas que atendem a um apelo em cruzadas de evangelização em massa, como aquelas de Billy Graham, permanecem nas igrejas. Mas, mesmo considerando as conversões reais, ainda não justificaria, pois não raras vezes Deus utiliza meios para converter pessoas, meios estes que não se tornam legítimos somente porque Deus os usou. Por exemplo, o fato de que maridos descrentes se convertem através da esposa crente não quer dizer que Deus aprova o casamento misto e nem que namorar descrentes para convertê-los seja estratégia evangelística adequada.
9. Os defensores dizem ainda que a Marcha promove a unidade entre os cristãos. Em alguns lugares do mundo, a Marcha é concluída com um "pacto" entre as denominações, confissões e indivíduos, exigindo que cada um deles não faça mais discriminação por razões doutrinárias.
Comentário: Sou favorável à unidade entre os verdadeiros cristãos. Mas não a qualquer preço e não qualquer tipo de união. A unidade promovida pela Marcha, sob as condições mencionadas acima, tem o efeito de relegar a doutrina bíblica a uma condição secundária. O resultado é que se deixa de dar atenção à doutrina. Em nome da unidade, abandona-se a exatidão doutrinária. Deixa-se de denunciar os erros doutrinários grosseiros que estão presentes em muitas denominações, erros sobre o ser de Deus, sobre a pessoa de Jesus Cristo, a pessoa e atuação do Espírito, o caminho da salvação pela fé somente, etc. Unidade entre os cristãos é boa e bíblica somente se for em torno da verdade. Jamais devemos sacrificar a verdade em nome de uma pretensa unidade. A unidade que a Marcha mostra ao mundo não corresponde à realidade. Ela acaba escondendo as divisões internas, os rachas doutrinários, as brigas pelo poder e as divisões que existem entre os evangélicos. Se queremos de fato unidade, vamos encarar nossas diferenças de frente e procurar discuti-las e resolve-las em concílios, reuniões, na mesa de discussão - e não marchando.
10. Os defensores da Marcha dizem que ela é uma forma de proclamação do Evangelho ao mundo.
Comentário: A resposta que damos é que a proclamação feita na Marcha vem misturada com apresentações de artistas gospel profissionais, ambiente de folia e danceteria, a ponto de perder-se no meio destas outras coisas. Além do mais, a mensagem proclamada é aquela da Renascer em Cristo, com a qual naturalmente as igrejas evangélicas históricas não concordariam, pois é influenciada pela teologia da prosperidade e pela batalha espiritual.
É evidente que, analisada de perto, a "teologia da Marcha" não se constitui em teologia propriamente dita. Os argumentos acima não provam que há uma revelação para que se marche, e não justificam a necessidade de os cristãos obedecerem organizando marchas. Não há qualquer justificativa bíblica para que os cristãos façam marchas, nem qualquer sustentação bíblica para a idéia de "dar a Deus a oportunidade" mediante uma marcha, ou ainda de que, marchando e declarando, se conquistam regiões e cidades para Cristo. Se há fundamento bíblico, por que os primeiros cristãos não o fizeram? Por que historicamente a Igreja Cristã nunca fez?
Pelos motivos acima, entendo que os argumentos bíblicos e teológicos apresentados para justificar a Marcha para Jesus não procedem. Nada tenho contra que cristãos organizem uma Marcha para Jesus. Apenas acho que não deveriam procurar justificar bíblica e teologicamente como se fosse um ato de obediência à Palavra de Deus. Neste caso, estão condenando como desobedientes todos os cristãos do passado, que nunca marcharam, e os que, no presente, também não marcham.
* Este texto foi originalmente publicado no site da Igreja Presbiteriana do Brasil em 17/01/2005
** O autor é paraibano, casado com Minka, pai de Hendrika (19), Samuel (16), David (15), Anna (13). Pastor presbiteriano (IPB), mestre e doutor em Interpretação Bíblica (África do Sul, Estados Unidos e Holanda), chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de exegese, Bíblia, pregação expositiva no Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da IPB, autor de vários livros.
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